domingo, 21 de setembro de 2008

"O Museu Colecção Berardo apresenta de 1 de Setembro a 2 de Novembro, "Desenhos de Escritores" — uma exposição em colaboração com o IMEC – Institut Memoires de l'Édition Contemporaine, e o Musée d'Ixelles, que reúne obras pictóricas dos maiores escritores mundiais.
As fronteiras entre a escritura e a pintura, o texto e o desenho são uma problemática recorrente. Ao contrário do que acontece entre a separação das artes e das técnicas, os poetas, escritores, pintores e artistas plásticos trabalham num território ainda não cartografado.
Nunca, até agora, se havia reunido numa única exposição uma tal diversidade de escritores que também desenham — de George Sand a Bernard Heidsieck, do romantismo à poesia sonora, passando pelos surrealistas e até à beat generation.
Uma coisa fica clara, em “Desenhos de Escritores” — um grande número daqueles que são unanimemente considerados os maiores nomes da escrita do mundo, praticaram a arte do desenho, do guache, da gravura, das colagens.
Para a elaboração desta exposição, o Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine procurou no seu arquivo de manuscritos aqueles em que os desenhos dos escritores aparecem, por acaso, por entre o texto.
O Museu Colecção Berardo complementa a exposição “Desenhos de Escritores” com o testemunho dos escritores-desenhadores portugueses Almada Negreiros, Mário Cesariny e Ana Hatherly.
Ao contrário do que acontece entre a separação das artes e das técnicas, os poetas, escritores, pintores e artistas plásticos trabalham num território ainda não cartografado. Essa “parte alguma”, pouco trabalhada pela historiografia tradicional, é o local da transversalidade entre linguagens e formas e a sua inclusão dentro de uma única pulsão inventiva, sem hierarquia, sem compartimentações, ou limites.
Inúmeros pintores, ao longo da história, deixaram um testemunho que não é apenas composto de telas e pinturas — deixaram também uma obra escrita. Miguel Ângelo, Van Gogh, Gauguin, Kandinsky, Mondrian, Malevitch, Rothko, Beuys, Jorn são apenas alguns dos exemplos que podem ser enumerados.
Porque razão não desenham, então, os escritores?
Conhecemos os desenhos de Goethe e Victor Hugo, mas de Barthes, de Althuser, Malraux ou Hervé Guibert? Provavelmente, eles terão desenhado sem outro propósito que não por prazer ou mera distracção. O desenho poderá até nem ocupar mais do que um rodapé de um manuscrito — como no caso de Stendhal. Mas casos há em que ocupa páginas inteiras.
Salpicando tinta para várias folhas de papel, criando imagens fantasmagóricas, terá Victor Hugo criado a pintura gestual um século antes de Pollock? E o que dizer de Baudelaire, caricaturista fenomenal: seria ele um desenhador de BD muito à frente do seu tempo?
Victor Hugo, Charles Baudelaire, Charles Cros, Guillaume Apollinaire, Paul Valéry, Max Jacob, Antonin Artaud, Jean Follain, Jacques Audiberti, Henri Michaux, William Burroughs, Roland Barthes, Michel Butor, Jean Tardieu, Christian Dotremont, e tantos outros escritores, são ilustrados ou ilustram-se a si próprios dentro desta “zona franca”, afastada de ideologias, fronteiras territoriais, e sem qualquer outro fim senão o da mistura criativa.
Esta exposição mostra, pela primeira vez, esta mutação, através de inúmeras peças de arquivos provenientes da Colecção do IMEC e também de importantes colecções privadas: de um auto-retrato de Baudelaire a um auto-retrato de Artaud, de um desenho erótico de Jouve a uma fotografia de Fleischer, do mau gosto de Max Jacob a uma vista campestre de George Sand.
A grande diversidade de autores, das técnicas utilizadas — desenhos, telas, colagens, obras gráficas e plásticas —, dos estilos e dos diferentes períodos está devidamente organizada cronologicamente, sugerindo pistas de interpretação e reflexão aos leitores — no fundo, levantando o véu sobre o que une e o que separa a escrita e o desenho.
A exposição é comissariada por Jean-Jacques Lebel, artista plástico e escritor. Para complementar a exposição, o catálogo de “Desenhos de Escritores” (“L’un pour l’autre”, Editions Buchet-Chastel) propõe um percurso pela produção gráfica dos grandes nomes da literatura, um passeio por mais de duas centenas de desenhos inéditos, reproduzidos em grande formato."
Alguém alinha? Parece interessante!

1 comentário:

João Filipe disse...

não pelo tema especifico (à partida..), mas pela viagem e o passeio em si, parece interessante :P